Planos & Ideias

SXSW: Qual o futuro dos 6 Graus de Separação? Nem Kevin Bacon tem a resposta

Publicada em 09/03/2014 8:30

Há quase duas décadas, nascia um dos maiores fenômenos do mundo digital: os 6 graus de separação de Kevin Bacon. No começo, era uma brincadeira simples que ditava que todo ser humano estaria a, no máximo, 6 graus de separação do ator Kevin Bacon. Depois – principalmente com as redes sociais – isso acabou virando uma lei generalizada: todo ser humano estaria a, no máximo, 6 graus (ou pessoas conhecidas) de separação de qualquer outro ser humano.

De 1994 até 2014, muita coisa mudou no mundo. Principalmente no mundo digital, que passou a contar com um zilhão de novas redes e ambientes colaborativos aproximando mais (ao menos em tese) as pessoas.

Mas isso de fato aconteceu? Como está a Lei dos 6 Graus hoje?


No SXSW, o próprio Kevin Bacon apareceu para discuti-la com jornalistas, atores e profissionais de comunicação de maneira geral. Curiosamente, o painel em si não chegou a nenhuma grande conclusão – mas a soma de outros eventos parte do festival certamente deram algumas pistas importantes.

O que era apenas uma brincadeira virou verdade
Não há, exatamente, uma pesquisa científica que comprove que todas as pessoas estão, de fato, a até 6 graus de separação umas das outras. Mas há o sempre importante e infalível teste. Escolha qualquer pessoa, de qualquer lugar, e mergulhe nas conexões sociais suas e de seus amigos. Uma a uma. Dará trabalho, mas você certamente comprovará a lei.

Os graus estão diminuindo
Com Facebook, Twitter, LinkedIn, Pinterest e um universo em expansão de redes sociais, é provável que apenas um ermitão perdido nos Himalaias esteja a 6 graus de separação de você. Na imensa maior parte dos casos, os graus são menores – muito menores.

Hoje, afinal, qualquer pessoa minimamente plugada soma mais “amigos” em suas redes sociais do que qualquer outra que vivia na longínqua década de 90.

O que isso nos diz? Que conhecemos – muito embora não necessariamente convivamos com – muito mais gente. E, ao conhecê-los, temos contato direto com suas opiniões e pensamentos despejados a cada instante em todas as redes em que participam.

Há mais competição para formar as nossas opiniões da mesma forma que há menos tempo para que elas sejam formadas. O resultado? Uma espécie de metamorfose da era da informação na era da desinformação. Demandamos menos embasamento para acreditar em algo ou em alguém e não pensamos duas vezes em transmitir a opinião de terceiros com a mesma força que ela teria se tivesse partido de nós mesmos.

Não precisamos mais saber para ensinar – e, com isso, nos tornamos um povo extremamente superficial. Não que isso seja ruim ou bom: é apenas a realidade.

O problema é que não aparentamos estar exatamente satisfeitos com essa realidade – o que nos leva ao terceiro ponto.

A volta ao passado vs. o supercérebro
A cada uma das dezenas de casos contados por empresas sobre como elas se engajam com os usuários por meio de storytelling e relacionamento social aprofundado, uma coisa não saía da minha mente: nos transformamos em um povo tão solitário ao ponto de escolher uma marca para desabafar – ao invés de um amigo real?

Aparentemente, sim. Mas, partindo do princípio básico de que todas as coisas que não fazem sentido acabam desaparecendo mais cedo ou mais tarde, isso tende a mudar.

Não que marcas e usuários deixarão de se relacionar nas redes: as pessoas em si é que devem voltar a se relacionar como seres humanos de verdade. Aos poucos, a palavra “relacionamento” deve ganhar contornos mais óbvios, deixando de ser sinônimo de ter um seguidor ou ganhar um like. Por quê? Porque desabafar, expor as suas verdades mais íntimas, nunca deixou de ser algo fundamental para o ser humano – e fazer isso apenas com empresas por meio de seus sites ou redes jamais conseguirá satisfazer plenamente esse desejo.

Só que uma coisa é ter um relacionamento real com 5, 10, 50 pessoas; outra é com uma média de 500 amigos em redes sociais que todos tem.

Como conseguir tempo e poder de processamento cerebral para efetivamente se envolver em relacionamentos aprofundados em escala?

Há (pelo menos) duas hipóteses, ambas que serão validadas (ou não) apenas no futuro próximo.

@ Hipótese 1: Diminuiremos o número de “amigos virtuais” em nossas redes – algo que, de fato, está já acontecendo a passos lentos em diversas faixas demográficas. Não que uma raiva coletiva domine o mundo e faça todos excluírem as suas amizades sociais – mas uma espécie de cansaço de ter tantos amigos anônimos e irrelevantes aos poucos gerará um filtro social pessoal que, hoje, praticamente inexiste. Diminuindo o volume de amigos, conseguiremos um equilíbrio maior entre a nossa necessidade de amizades reais e a nossa ansiedade por reconhecimento quantitativo, de culto ao ego.

@ Hipótese 2: Evoluiremos como raça humana, ampliando o nosso poder de processamento cerebral nas novas gerações – algo que também já está ocorrendo – de forma a conseguir cultivar mais relações com mais aprofundamento. Quantidade e qualidade, nesse caso, virarão sinônimos por meio da mais pura evolução darwiniana.

Seja qual for a hipótese que prevalecerá, o fato é que estamos hoje em plena era da transformação e ainda sem um direcionamento claro de onde vamos parar enquanto raça humana.

E talvez só consigamos saber mesmo daqui a mais 20 anos ao conferir se os 6 graus viraram 3 ou 2 (comprovando a evolução de um super cérebro) ou se eles foram ampliados, o que significaria uma volta nostálgica a um passado do qual poucos, hoje, ainda se lembram.

Que venha o futuro incerto!