Planos & Ideias

SXSW: A fórmula da inovação e a importância do caos

Publicada em 08/03/2014 8:00

Há tempos, os ambientes acadêmicos e corporativos buscam gerar contextos que propiciem um tipo de processo sistêmico de inovação que os permitam estar à frente de seus mercados.

Universidades inseriram o tema como parte da grade curricular, empresas criaram programas de recompensa para funcionários que solucionassem problemas de maneira diferenciada e mesmo tempos livres foram concedidos a colaboradores para que eles simplesmente exercitassem o ócio criativo (desde que conseguissem, claro, encaixar os amontoados de tarefas cotidianas fora desse suposto “tempo livre”).

Mas, até agora, foram raras as iniciativas que pensaram inovação de maneira realmente inovadora.

Inovação é um subproduto do caos. Ela não acontece com data e hora marcada e nem resulta de uma aula dada pelo maior dos “especialistas”.

Inovação, na prática, é fruto de uma espécie de casamento perfeito entre motivação e ocasião – algo difícil, mas não impossível, de se conseguir.

Motivação
Esse primeiro elemento da fórmula é provavelmente o mais simples. Em linhas gerais, basta haver um problema claro e um conjunto de pessoas empenhadas em solucioná-lo. A proposta: buscar as soluções mais óbvias e mais viáveis possíveis.

O problema é que esse caminho não é exatamente simples e requer, no mínimo, lampejos de genialidade para pensar em algo tão óbvio que ninguém, até então, pensou.

Isso nos leva ao segundo elemento da fórmula.

Ocasião
Suponha que você tenha um problema claro e um time de experts reunidos com o objetivo único de solucioná-lo. Isso garantirá o seu sucesso? De forma alguma.

Há estrutura demais, organização demais no elemento motivacional para que ele seja efetivo do ponto de vista de inovação. Falta caos.

E o caos, no mercado de hoje, pode ser traduzido por um bombardeio disruptivo de conteúdo sobre o máximo possível de temas. Quer inovar no segmento de varejo? Então não se foque em conteúdos e cases unicamente sobre o varejo e abra o leque: beba de fontes diferentes como logística, neurociência, física quântica, história das religiões ou quaisquer que sejam os temas que você aprecie em níveis pessoais e profissionais.

Informação relacionada a assuntos diversos “exercita” a mente, gerando sinapses que permitem que ela saia da caixa e some, de fato, experiências de universos diferentes em um único objetivo de solução.

Vamos a dois exemplos práticos:

Exemplo 1: Innocentive
A Innocentive é uma empresa focada especificamente em inovação. O seu funcionamento é “simples”: clientes dos mais diversos segmentos (de mídia a petróleo) postam no seu site problemas que precisam solucionar em seus negócios. A partir daí, o problema vai para uma base de mais de 300 mil “solucionadores”- de cientistas a médicos, passando por profissionais de logística, vendas, marketing etc. – espalhados por mais de 200 países. Todos tem à disposição as mesmas informações e tempos para postar propostas de solução que vão para o cliente. Caso ele aprove, o idealizador recebe uma polpuda recompensa em dinheiro (de US$ 5 mil a US$ 1 milhão, dependendo do problema) e todos saem felizes. A taxa de sucesso: 85% de todas as questões postadas são solucionadas.

Qual o resumo do que eles fazem? Jogar problemas em uma espécie de caos de profissionais das mais diversas áreas e esperar. Simples assim.

Exemplo 2: South x Southwest
Essa semana, estou escrevendo diretamente do South x Southwest, festival que une música, filme e mercado interativo em um único ambiente. Só chegar na cidade do evento – Austin, no estado americano do Texas – já é um choque.

O SXSW não acontece em um endereço específico, mas sim espalhado por dezenas de salas de convenções no centro da cidade. Há uma quantidade de palestras tão grande que a maior dificuldade é escolher a que deseja ir e não entrar em depressão pelas que abriu mão.

O tema? Você encontrará desde cientistas da Nasa falando sobre programas espaciais de detecção de meteoros a profissionais de mídias sociais contando casos diversos a desenvolvedores discutindo como seria um mundo sem devices a geneticistas falando sobre o futuro da raça humana. Há de tudo.

E, com tanta oferta, 32 mil pessoas vem de todo o mundo para beber conteúdo em um ambiente que também simula o mais perfeito caos.

Aqui, quem ganha não é um cliente com problema, como no caso da Innocentive, mas as tantas empresas às quais pertencem essas 32 mil pessoas que estão, neste instante, tomando socos mentais de conteúdo.

O evento em si é uma aula de inovação tão desestruturada quanto o caos a partir de onde ela sempre emerge.

E a lição para todas as instituições que realmente desejam inovar não poderia ser mais clara: fuja do padrão e insira o fundamental ingrediente do caos em meio à motivação que provavelmente já existe no seu corpo de colaboradores.

Organização demais, afinal, condiciona a mente a pensar de menos.