Planos & Ideias

Quando a transparência vira vilã

Publicada em 21/05/2013 14:46

Pelos quatro cantos do planeta, brados de maior transparência na comunicação entre cidadãos, empresas e países têm sido cada vez mais constantes. E esse tipo de transparência tem, de fato, sido responsável por algumas das mais significativas revoluções sociais: afinal, ela pressupõe a possibilidade de todos poderem denunciar injustiças, desmandos ou catástrofes político-sociais que estão ocorrendo às suas voltas.

Foi por meio dessas denúncias, ora travestidas de gritos de desespero, ora de clamores por apoio global, que o mundo árabe entrou em uma espiral de mudanças cujos resultados são, ainda hoje, imprevisíveis.

Foi pelos mesmos canais sociais que denúncias de tortura na base americana de Guantanamo, em Cuba, correram o planeta na velocidade da luz, mudando a visão maniqueísta comumente atribuída à guerra contra o terrorismo.

Da mesma Cuba, espremida entre uma ideologia insustentável e uma realidade devastadora, saiu a blogueira Yoani Sánchez, denunciando os tão constantes (e deploráveis) ataques à liberdade de expressão comuns a qualquer regime ditatorial, em qualquer momento da história.

A quem a Transparência defende?

Transparência não tem nenhuma ideologia. Dependendo da voz que chegar ao mundo por meio de redes sociais, os vilões podem ser líderes árabes, democratas americanos, ditadores cubanos ou qualquer outro ser que, seja por competência político-militar, oportunidade ou oportunismo, tenha galgado para si os tronos modernos das nossas sociedades.

E isso é algo a se comemorar: afinal, não fossem as redes sociais com o seu inigualável poder de viralização, a própria civilização permaneceria eternamente refém dos controladores dos meios de comunicação de massa.

Mas, se é indiscutível o papel revolucionário da transparência e das redes sociais na nossa civilização, é também quase ignorado um dos seus maiores efeitos colaterais: a fragilidade que elas incutem no tecido social como um todo.

Afinal, um ambiente de transparência é, por definição, um ambiente em que todos podem se expressar de maneira livre, em muitos casos envoltos no perigoso manto do anonimato. E que resultados isso pode gerar?

O Wikileaks
Em 2010, o Wikileaks virou notícia no mundo inteiro por revelar ao mundo documentos sigilosos e comprometedores de diversas superpotências, transformando o seu fundador, Julian Assange, em um titã na interminável guerra ideológica entre opressores e oprimidos. No meio dos documentos revelados pelo seu portal de transparência, havia um do serviço secreto americano listando os pontos mais críticos e vulneráveis a ataques terroristas em todo o mundo. Pouco se fala sobre isso, mas a lista é, na prática, uma receita para maximização de danos que podem ser causados por organizações terroristas como a Al Qaeda.

Em nome da transparência, criou-se uma situação que ainda hoje coloca em risco as vidas de milhões de habitantes – um risco ainda pouco percebido por brasileiros que, afinal estão mais acostumados a explosões de bueiros nas ruas do que de bombas.

O Bolsa Família
No último final de semana, um boato circulou pelas redes alardeando que o programa social Bolsa Família seria encerrado nos próximos dias. Resultado? Uma correria simultânea a agências da Caixa Econômica Social para saques do benefício, gerando tumulto em 119 unidades de 12 estados, incluindo depredações e os óbvios problemas financeiros originados pelas retiradas de dinheiro em massa.

Por conta da transparência, um boato de origem ainda não identificada acabou espalhando pânico e causando danos de todos os tipos tanto à população quanto ao próprio governo brasileiro, que precisará arcar com os prejuízos gerados pela impaciência coletiva de sequer checar a veracidade de uma informação tão relevante.

As duas faces da transparência
Não é que a transparência seja algo negativo, obviamente. Sem ela, o mundo certamente seria um lugar muito (ou ainda) mais sombrio do que é hoje, com repressões mais frequentes e uma desigualdade social que dificilmente diminuiria no curto, médio ou longo prazo.

No entanto, é inegavelmente possível que os efeitos colaterais dessa transparência possam gerar danos tão grandes quanto os seus benefícios – incluindo à integridade física de instituições e dos próprios cidadãos que se beneficiam dela.

A transparência, afinal, trouxe ao mundo um outro tipo de inimigo: o terrorismo da informação, capaz de desnudar até mesmo as mais fundamentais estruturas de segurança pública em segundos.

E, independentemente de qualquer debate, de qualquer argumento contra ou a favor, o fato é que a sociedade precisará conviver com essas duas faces de uma transparência que dificilmente deixará de existir, para o bem ou para o mal – e entendendo que o maior avanço de todos os tempos na liberdade individual é também a maior ameaça à nossa segurança coletiva.

Se estamos preparados, apenas o tempo dirá.