Circuito Deluca

Social commerce toma forma no Brasil

Publicada em 08/02/2015 9:06

Olhou, gostou, comentou, comprou! Um número crescente de comerciantes vem transformando as redes sociais em vitrines de seus produtos. E um número ainda maior de frequentadores do Twitter, Facebook, e Instagram, tem se divertido comprando por impulso.

No mundo inteiro, muitos negócios B2C estão aprendendo a lidar com a agregação das redes sociais aos seus canais de vendas.  E o Brasil está inserido nesse cenário. A estimativa de muitos analistas é a de que o social commerce movimente hoje cerca de R$ 100 milhões por ano no país. Até 2018, a modalidade deverá responder por 6% do e-commerce, movimentando R$ 1,8 bilhão em transações.

São números otimistas, especialmente se consideramos que o social commerce tem se caracterizado, até aqui, por ser um canal destinado à impulsionar as promoções dos grandes do e-commerce e anabolizar as vendas dos pequenos varejistas, sem bala na agulha para sustentar grandes operações proprietárias de comércio eletrônico.

Mas com base nessas e outras projeções – como a da empresa de e-commerce canadense Shopify, que aponta o Facebook como líder em vendas, com 1,85% de cliques passagem que conduzem a uma compra, contra 0,77% do Twitter), as próprias redes sociais já começaram a investir em soluções nativas – os famosos botões  “Comprar” –  com o objetivo de tentar se inserir ainda mais no ecossistema e evitar perder dinheiro, já que hoje, o modelo de negócio mais bem sucedido as deixa de fora da melhor parte da transação: a efetivação da compra propriamente dita.

Que modelo de negócio é esse? Aquele de Social Shopping colocado em prática pela Amazon e o Twitter em maio do ano passado, e que permite a usuários dos dois serviços adicionar produtos ao carrinho de compras do site Amazon.com, sem sair do Twitter. Basta que o usuário responda ao tweet apresentado na sua timeline (contendo o link do produto à venda na Amazon e a hashtag #AmazonCart), com outro tweet contendo a mesma hashtag (#AmazonCart).

A mecânica é muito semelhante à usada hoje no Brasil pelas soluções das startups Boxbuy e Arco.

A solução da Boxbuy, que venceu recentemente a primeira edição do desafio MasterCard Digital Commerce SHIFT, permite que comerciantes e fabricantes iniciem a venda de seus produtos nas redes sociais usando os respectivos botões “Curtir” para que os consumidores  possam adicioná-los a seus carrinhos de compra. Além disso, já possibilita também que as lojas online ofereçam seus produtos por meio de aplicativos de mensagens instantâneas, como o  WhatsApp.

No caso das redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram), o Boxbuy identifica quando o consumidor curte algum produto à venda, uma vez que esse produto foi previamente cadastrado pelo comerciante no site Boxbuy.com. A partir dessa identificação, envia o produto para o carrinho do site Boxbuy, onde a compra é finalizada. Feito o pagamento, o comerciante recebe os dados do comprador e providencia o envio do produto. O Boxbuy cobra uma taxa de 2% caso a venda seja concretizada.

Já a Arco permite que o consumidor busque no Instagram pela hashtag #usearco para ver fotos de todos os produtos à venda, ou #arcoama para conhecer os produtos que o Arco está promovendo. A compra é feita a partir da inclusão da palavra “compra” no comentário feito na foto referente ao produto desejado. Para que o sistema funcione, o comerciante também precisa estar previamente cadastrado no site Arco.vc e utilizar a tag #usearco nas fotos dos produtos publicadas na rede social. O consumidor só paga o preço cobrado pelo vendedor por cada produto, sem adicionais. E os vendedores pagam uma comissão de 5,5% do valor da mercadoria para a Arco, como taxa de venda.

Na maioria das vezes, no entanto, em vez de clicar diretamente no anúncio de um varejista no Facebook para fazer uma compra, o consumidor vê a imagem do produto no Pinterest ou no Instagram e acaba comprando o produto na loja física, ou fazendo o pedido por e-mail ou telefone. A imagem é apenas o gatilho que dispara o processo da compra.

Um desafio das redes agora é fazer com que mais micros e pequenas empresas encarem o social commerce como uma ferramenta de geração de negócios.

Para crescer, educar
Não por acaso, no início deste ano, o Facebook iniciou um projeto piloto com a Unas, associação de moradores da comunidade de Heliópolis. A rede social está instalando um laboratório de inovação, com computadores e acesso à internet, onde serão aplicados cursos destinados a microempreendedores e usuários da plataforma em geral. O objetivo é mostrar de que forma esses “empresários locais” podem usar a rede social e seus serviços, como Messenger, o Instagram e o WhatsApp como ferramentas para impulsionar os negócios.

O potencial é grande. Hoje quase 90% da população de Heliópolis usa o Facebook. Embora a comunidade seja muito ativa, com mais de 5 mil pequenos empresários locais, incluindo comerciantes e prestadores de serviço, 86% deles ainda não têm uma página da rede social e desconhecem completamente como incrementar seus negócios por meio da plataforma.

O laboratório está em fase final de montagem, com provisão de começar a funcionar no início de março. Funcionários do Facebook darão cursos sobre melhor uso do da rede social, de modo geral, incluindo dicas de privacidade, segurança, criação de páginas, melhores práticas de conteúdo, noções de marketing digital e envolvimento com os potenciais consumidores.

Algo que os usuário da LikeStore já descobriram há tempos. O marketplace de social commerce tem mais 24 mil lojas, responsáveis por 5 mil transações mensais através do Facebook e, agora, também através do Instagram. O o sistema de criação da loja é gratuito. A LikeStore fatura cobrando 2% sobre as vendas. O lojista ainda paga uma taxa para o meio de pagamento usado – 7,4% para cartão de crédito e 2,9% para boleto ou transferência bancária, acrescidos de R$0,39 (fixo) por transação. No plano Pro é possível cadastrar até 200 produtos.

reprodução

Outra startup que apostou no social commerce foi a Facíleme. O serviço funciona como um aplicativo para a criação de lojas virtuais no Facebook. Hoje reúne mais de 28 mil lojas de diversos segmentos.

Cursos gratuitos na Feira do Empreendedor, do Sebrae
Os cursos do Facebook em Heliópolis terão, em média, cinco meses de duração. Quem visitar esta semana, em São Paulo, a Feira do Empreendedor, organizada pelo Sebrae, vai ter oportunidade de conhecer um pouco da grade em micro oficinas relâmpago oferecidas no estande montado pela rede social. Lousas imantadas foram instaladas para facilitar a explicação de como a plataforma pode ser usada pelos empreendedores para incrementar seus negócios. E consultores farão atendimentos individuais para tirar dúvidas sobre confecção de anúncios, segmentação, criação de páginas, etc.

Além das oficinas relâmpago, o Sebrae inclui a palestra “Facebook para Negócios” na programação oficial do evento. A agenda de palestras é a seguinte:
Dia 07/02 – Sala do Conhecimento 02 – às 14h30
Dia 08/02 – Sala do Conhecimento 04/05 – às 16h30
Dia 09/02 – Sala de capacitação 08 – às 18h00
Dia 10/02 – Sala de capacitação 08 – às 18h00

A intenção do Facebook é manter essa programação para as outras seis edições da feira do Empreendedor marcadas para o segundo semestre deste ano, nas cidades de Brasília, Cuiabá, Salvador, Maceió, Macapá e Rio de Janeiro.

Atualmente, 2,1 milhões de Pequenas e Médias Empresas (PMEs) mantêm páginas no Facebook, número que corresponde a um terço das empresas desse porte no Brasil e que usam a plataforma para fazer negócios.

A parceria do Sebrae com o Facebook já rendeu a criação de um curso online grátis e 30 mil Km percorridos em todo o Brasil capacitando empreendedores e aprendendo com eles. A equipe do Facebook admite que já aprendeu muitas coisas novas com esse contato mais próximo com comerciantes, empreendedores e microempreendedores. O dono de uma lanchonete na Rocinha (no RJ), por exemplo, recebe pedidos do delivery pelo chat de Facebook. Um uso inusitado da ferramenta.

Em Manaus, uma das primeiras brigaderias da cidade, a Brigadore Brigadeiros Gourmet, alcançou grande parte de sua clientela com divulgação no Instagram e no Facebook. Bons canais para despertar o desejo pelos produtos – o famoso comer com os olhos -, as duas redes se tornaram os principais canais para o envio de pedidos.

Apesar de investir em anúncios com links para vídeos desde 2012, a Kelly’s Megastore apostou em anúncios de vídeos nativos do Facebook para aumentar as vendas de sua linha de equipamentos para personalização de calçados. Desde novembro deste ano, a empresa vem promovendo uma campanha segmentada de vídeo com um tutorial de 10 minutos que ensina a personalizar calçados usando uma máquina e bijuterias vendidas pela empresa. Entre os resultados, a empresa conseguiu dobrar a chamadas no televendas e 20% de aumento na base total de clientes.

Entre os grandes, promoções
Muito incipiente, o Social Commerce no Brasil ainda não aparece nas pesquisas tradicionais sobre o varejo online brasileiro. Mas como o mobile commerce, que em 2014 respondeu por quase 10% (9,7%) das vendas online realizadas no país, segundo o 31º relatório WebShoppers, da e-bit, deve ainda em 2015 começar a ser mensurado.

“Hoje as redes sociais ainda são um canal de experimentação para o grande varejista, usado com sucesso para fomentar as promoções”, comenta Rodrigo Borer, CEO do Buscapé para América Latina. Segundo o executivo, as redes sociais têm sido um bom local para descobrir e iniciar a compra de produtos que não estamos  precisando comprar. Das comprar por impulso, não das compras planejadas.

Apenas uma fração das vendas dos varejistas online está realmente sendo gerada diretamente através de uma referência em uma rede social. Mas o volume de comércio social está crescendo rapidamente. Três dígitos, em muitos casos, segundo relatório recente da BI Intelligence sobre como a mídia social está impactando todo o processo de compra.

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No mundo, os 500 maiores varejistas ganharam 2,69 bilhões de dólares com social commerce em 2013, de acordo com a do Internet Retailer Social Media 500 um aumento de mais de 60% ​​em relação a 2012, quando o mercado de e-commerce como um todo cresceu apenas 17%.

Recomendação em alta
As mídias sociais também conquistam cada vez mais importância também para pesquisar opiniões ou recomendações de produtos. A maioria (72%) dos mil consumidores brasileiros ouvidos pela Deloitte no fim de 2014 para a tradicional “Pesquisa Natal – Revelação sobre o hábito de consumo dos brasileiros”, declarou que é influenciada pelas opiniões dos internautas no momento das decisões de compra. As redes sociais, microblogs e blogs são as ferramentas mais utilizadas pelas empresas para interagir com o consumidor final.

Outro estudo, da empresa Sophia Mind, aponta que 63% dos brasileiros só compram depois de consultar as redes sociais.