Circuito Deluca

Voluntariado digital vai muito além do ativismo de sofá

Publicada em 02/12/2014 11:33

Ativismo de sofá? Voluntariado intermediado pela internet? Voluntariado à distância? Voluntariado on-line? e-volunteering? Cibervoluntários? Microvoluntários? Ciberativistas? Clicktivistas? Hacktivistas? Netvoluntariado? Voluntariado em rede? Voluntariado virtual?

Não importa o nome pelo qual atende. O voluntariado digital é uma realidade em crescimento acelerado, segundo pesquisa realizada pela Fundação Telefônica, divulgada nesta terça-feira, 2 de dezembro.

Durante 18 meses, pesquisadores se debruçaram sobre 100 projetos de voluntariado digital, de diversos cantos do mundo, realizando entrevistas presenciais, participando de workshops, lançando mão de todos os instrumentos que pudessem ajudá-los a desvendar práticas de voluntariado nas quais tecnologia é um importante meio para a transformação social.

O resultado do estudo virou um livro, disponível para download na Internet, onde a equipe coordenada pela especialista Monica Galiano apresenta novos comportamentos da sociedade conectada e as práticas voluntárias à distância.

“A Fundação Telefônica está completando 15 anos. Temos um programa interno de voluntariado que queremos levar para a sociedade em geral, por isso decidimos mapear o que de mais interessante está acontecendo no mundo, considerando que a tecnologia pode se somar às formas tradicionais de voluntariado, ampliando as oportunidades de ação social”, afirma Gabriella Bighetti, diretora presidente da Fundação Telefônica Vivo. A intenção da Fundação é começar, já em 2015, a incorporar ao seu programa de voluntariado iniciativas que, por usarem modernas tecnologias de comunicação, possam ser realizadas à distância.

“Em 2016 gostaríamos de abrir os programas para toda a sociedade”, comenta Gabriella. “Com o voluntariado digital e outras iniciativas, conseguimos colocar o negócio da nossa empresa [a Telefônica Vivo] a serviço do social, permitindo irmos além e oferecer uma ação voluntária inovadora e digital, potencializando ainda mais a ação”, ressalta Gabriella.

Características do voluntariado digital
Partindo da crença de que o voluntariado digital é uma extensão do voluntariado presencial e mais uma ferramenta facilitadora para que mais pessoas possam agir em prol do social, os pesquisadores da Fundação Telefônica foram a campo com a missão de desvendar conceitos ligados à conectividade e seu impacto sobre a sociedade contemporânea, especialmente no agir solidário.

Com base nos 100 projetos estudados, alguns bastante maduros, segundo Gabriella, os pesquisadores indicam caminhos inspiradores para o voluntariado digital.

1 – Escalabilidade
As práticas de voluntariado digital atingem m número imensamente maior de pessoas, mais rápido, independente da localização geográfica dos voluntários e beneficiados.

2 – Causas mundiais
Com mais informações disponíveis, mais rápido e com maior profundidade, sobre o que acontece no mundo, estamos mais sujeitos a nos sensibilizar com causas distantes de nós, que convivem bem com as causas locais. “O buraco da rua mobiliza tanto quanto o casamento de meninas de 8 anos em algumas culturas. O voluntariado digital permite olhar o perto e longe ao mesmo tempo. O mundo e o meu quintal”, explica Gabriella.

3 – Hubs
Iniciativas que juntam iniciativas, buscando maximizar resultados, estão se tornando cada vez mais comunas, segundo Gabriella. “Surgem através de apps e sites que agrupam todas as vagas disponíveis no mundo para jovens voluntários”, diz. Quase sempre ajudam na doação de horas, ou minutos, por um objetivo que transcende o nosso interesse pessoal e imediato e aponta para a construção coletiva de uma sociedade melhor. “Uma pessoa doando uma hora para uma ação pode ser pouco, mas a soma de milhares de pessoas doando, de forma coordenada, é capaz de provocar micro revoluções”, afirma Gabriella. Um clique só pode não mudar o mundo, mas a soma de milhões de cliques, sim.

E é essa facilidade de agir instantaneamente que está levando mais e mais pessoas a apoiarem causas nas quais acreditam e organizarem ações que têm conseguido um maior engajamento cívico em todo o planeta.

Gabriella lembra que, ao utilizar o tempo livre, dos jovens principalmente, para realizar uma ação social à distância, o voluntariado digital se apoia em pilares da cultura digital como a colaboração, os coletivos digitais, os movimentos de crowd. “Junto com esses princípios, encontra nos projetos formas de expressão bastante fortes”, diz.

Há um tipo de voluntariado online muito procurado, mas, ao contrário de outros trabalhos voluntários virtuais, bastante difícil de encontrar, no qual a Fundação Telefônica está particularmente interessada: a tutoria online. “Já estamos trabalhando com ONGs e realizando campanhas de voluntariado para letramento digital, como o ensino de programação”, explica a executiva.

Mas há um campo muito maior de atuação por explorar, como a alfabetização gráfica, reconhecendo que cada vez mais a vida é vivida através da comunicação e da mídia em telas; a alfabetização de navegação, uma percepção da geografia da internet que permite manobrar por meio de múltiplos canais e formatos de informação; a alfabetização no contexto e nas conexões que os ajudam a entretecer as informações e conversas que estão fluindo aceleradamente em nossas vidas; a alfabetização em foco, para minimizar as distrações da cacofonia digital e completar o trabalho que as pessoas precisam fazer – seja para seus empregos ou seu enriquecimento pessoal –, mesmo quando são multitarefas; e a própria alfabetização multitarefa, a capacidade de fazer várias coisas (quase que) ao mesmo tempo.

Mitos derrubados
Em sua tarefa de inspirar e incentivar o debate sobre voluntariado digital, o estuda da Fundação Telefônica presta ainda um grande serviço, ao derrubar alguns mitos sobre o Voluntariado online. Confira.

1 – O voluntariado online é para quem não tem tempo para um trabalho voluntário “real”.
Falso. O Voluntariado on-line economiza tempo de deslocamento, mas usa tempo real, e não tempo “virtual”.

2 – Os voluntários online e voluntários presenciais são de tribos diferentes.
Falso. Voluntários engajados podem realizar ambas as modalidades de acordo com a necessidade.

3- Os voluntários online são apenas os jovens com muitos recursos, de países desenvolvidos.
Falso. Segundo as Nações Unidas, 40% dos voluntários moram em países em desenvolvimento. Os países mais adiantados, segundo Gabriella, são Estados Unidos e alguns asiáticos. O ativismo digital também é muito forte na África. “Mas ninguém está muito maduro. Estamos em um momento de explosão, com muitos projetos surgindo. E o Brasil não fica atrás”, afirma ela.

4 – O voluntariado on-line é impessoal.
Falso. Em geral, a maioria das pessoas se mostra mais disposta a compartilhar informações e sentimentos online do que pessoalmente.

5 – A internet é perigosa e por isso expõe a organização e seus colaboradores a muitos riscos.
Falso. Pode-se garantir a segurança nos programas de voluntariado online e oferecer segurança às organizações, seus colaboradores e os voluntários.

6 – O voluntariado online requer a construção de uma plataforma online própria ou a utilização de uma ferramenta tecnológica específica.
Falso. Basta ter um e-mail para poder envolver voluntários online. Todas as plataformas de interação digital existentes permitem uma comunicação fluida.

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Um exemplo que consta no livro é que todos os dias, ao redor do mundo, voluntários online ajudam a Ann Foundation a preparar e dar aulas online sobre vários assuntos para cerca de 200 crianças com deficiência visual ou auditiva que vivem em oito cidades diferentes na Índia. A fundação, baseada nos Estados Unidos, educa e capacita crianças econômica e socialmente marginalizadas e jovens com deficiência. Tem projetos na Índia, Ucrânia, Camarões e Egito e, com o apoio de centenas de voluntários on-line, nos últimos anos, atendeu a mais de 2 mil crianças.

Também é possível encontrar na publicação o Cidade Democrática, que nasceu no Brasil. É um novo modelo de colaboração para governança social, baseado em uma plataforma de participação política para criação de soluções inovadoras. Apontam-se e compartilham-se questões públicas, identificam-se desejos coletivos e tomam-se decisões com o apoio da inteligência coletiva. Após discussão dos problemas, são criadas propostas, iniciando-se uma conversa com outros atores sociais visando à sua solução.